RESENHA: A DISPERSÃO E A DERIVA NA CONSTITUIÇÃO DA AUTORIA E SUAS IMPLICAÇÕES DO LETRAMENTO.
TFOUNI, L. V. A dispersão e a deriva na constituição da autoria e suas implicações para uma teoria do letramento. In: SIGNORINI, I. (org.). Investigando a relação oral/escrito e as teorias do letramento. Campinas, SP: Mercado de Letras, 2001. pp. 77-94.
Tfouni apresenta uma proposta, ancorada pela AD, na qual não considera os indivíduos empíricos que fazem uso da língua escrita, mas posições de sujeito dentro do continuum do letramento (Tfouni, 2001, pp. 79,80). Além disso, Tfouni reflete sobre a constituição de autoria e suas implicações quanto ao letramento.
Vale a pena fazer uma pausa para recordar duas concepções que aparecem logo no início do texto e, que acredito serem importantes para compreender o texto de Tfouni. A primeira repousa sobre noção de sujeito admitida pela AD e adotada por Tfouni. O sujeito da AD não é o indivíduo, sujeito empírico, mas o sujeito do discurso, que se determina na relação com o outro e que carrega consigo marcas do social, do ideológico, do histórico.
A segunda concepção relaciona-se a continuum, que na visão de Tfouni, consiste numa graduação de um saber sobre a escrita, que independe de variáveis como alfabetização, grau de escolaridade e tempo de escolarização, ou seja, o letramento (Tfouni, 2001, p. 81).
Tendo esses conceitos clarificados, passemos à questão da autoria e letramento. Tfouni apreende a autoria a partir do ponto de vista da AD, tendo “o autor como uma posição discursiva, diferente da de escritor o de narrador” (Maingueneau 1993 apud Tfouni, 2001, p. 82).
Segundo Orlandi (2001, p. 74)1, o que temos em termos real do discurso é a dispersão e a incompletude. O sujeito ocupa a posição de autor quando volta ao processo de produção de sentidos, procurando por essa dispersão. Na contramão, quando a dispersão prevalece, a autoria não se instala. Tfouni (2001, p. 87) entende que a dispersão não pode sofrer um juízo de valor de mera falta de coesão e/ou de coerência. Tendo em vista letramento, autoria e continuum, essa posição descartaria a questão da heterogeneidade enunciativa (a linguagem é heterogênea em sua constituição).
O lapso (a dispersão), portanto, não seria a única forma de emergência tangível do “outro”. Na heterogeneidade constitutiva2, percebe-se a presença do outro, ainda que esta não seja óbvia, no interdiscurso (aquilo que já foi dito em algum lugar, em certo tempo, e que chamamos de memória discursiva).
Sou favorável ao parecer de Tfouni (2001, p. 92) quanto à prática docente presente em muitas de nossas escolas, ou seja, àquela que coloca “os alunos na posição de sujeitos enunciadores que devem repetir o discurso escolar, mas quase nunca na de autores”. Ao analisarmos os trabalhos dos alunos, podemos até encontrar uma boa produção textual (sem muitos problemas ortográficos e/ou gramaticais), mas comumente não reconheceremos as marcas de autoria, antes, predomina o discurso que apenas reproduz o que é convencionado e legitimado pela escola.
Não é preciso, necessariamente, escrever para ser autor, entretanto, na maioria das vezes o modo de dizer (oralidade) do aluno em sala de aula, também sofre restrições e regras institucionais.
O olhar sobre o texto do aluno em busca da ausência ou presença de conhecimento linguístico pode ser um dos fatores que contribuem para a multiplicação de trabalhos plagiados, tanto no ensino básico quanto no ensino superior. O plágio é uma expressão clara de que não há vínculo entre o sujeito e o texto, mais do que isso revela o fracasso da escola em propiciar condições para que esse sujeito se constitua como autor.
Cabe ainda a reflexão sobre a responsabilidade que autor tem sobre seu texto. Isto é, o aluno não pode ser um mero espectador da sua própria escrita. Quanto ao docente — receber os textos e corrigi-los, conferindo-lhes uma nota (apontando erros, sem explorá-los), não viabiliza ao aluno o processo de autoria e, mais que isso não permite ao professor cumprir o seu papel de direcionar o olhar do aluno sobre a sua produção, bem como propor estratégias outras para apresentar sua ideia, fazendo, quando necessário, os devidos ajustes.
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1 ORLANDI, E. P. Análise de Discurso: princípios e procedimentos. Campinas, SP: Pontes, 2001.
2 AUTHIER-REVUZ, J. Heterogeneidade(s) Enunciativa(s). Cad. Est. Ling., Campinas, 1990. Disponível em https://www.iel.unicamp.br/revista/index.php/cel/article/view/3012/2493. Acesso em 11 Out 2013.